Todo mundo sente ansiedade. Ela aparece antes de uma prova, de uma entrevista de emprego, de uma decisão importante, e, dentro do esperado, é útil: prepara o corpo, mobiliza energia, ajuda a se antecipar a problemas. O transtorno de ansiedade é outra coisa: é quando essa resposta se torna intensa, frequente e desproporcional, e passa a ocupar espaço na vida, no sono, no trabalho, nos relacionamentos.
Não é exagero tratar do tema com atenção: dados da Organização Mundial da Saúde apontam que o Brasil tem a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo, com cerca de 9,3% da população afetada. E o levantamento nacional Covitel 2023 encontrou diagnóstico médico de ansiedade em 26,8% dos brasileiros entrevistados, com números ainda maiores entre mulheres e jovens.
Como diferenciar ansiedade “normal” de transtorno
Nenhum texto de blog substitui uma avaliação profissional, mas alguns sinais costumam chamar atenção:
- Preocupação excessiva na maior parte dos dias, difícil de controlar;
- Sintomas físicos frequentes: tensão muscular, coração acelerado, falta de ar, dor de cabeça, desconforto gastrointestinal;
- Irritabilidade, dificuldade de concentração e insônia;
- Evitação: deixar de fazer coisas importantes (dirigir, falar em público, marcar compromissos) para não sentir ansiedade;
- Prejuízo real: quando a ansiedade passa a definir escolhas e a limitar a vida.
Um ponto importante: buscar ajuda não é sinal de fraqueza, é uma decisão de autocuidado.
O ciclo que mantém a ansiedade
Na abordagem cognitivo-comportamental (TCC), entendemos a ansiedade como um ciclo entre pensamentos, emoções, reações do corpo e comportamentos. Um exemplo comum:
- Um pensamento surge (“vou me sair mal”, “algo ruim vai acontecer”);
- O corpo responde: coração acelera, tensão, falta de ar;
- Para aliviar o desconforto, a pessoa evita a situação, não vai à reunião, cancela o compromisso;
- O alívio é imediato, e é exatamente isso que ensina o cérebro de que a situação era perigosa;
- Na próxima vez, a ansiedade volta mais forte e a evitação fica mais automática.
A evitação alivia na hora e alimenta o problema no longo prazo. Esse é um dos pontos centrais do tratamento.
Como a TCC atua
A terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens mais estudadas para os transtornos de ansiedade. Diretrizes internacionais, como a do instituto britânico NICE, recomendam intervenções baseadas em TCC como primeira linha no tratamento da ansiedade generalizada em adultos, e uma revisão recente publicada no JAMA Psychiatry (2023) apontou a TCC como tratamento de primeira escolha, com eficácia que se mantém após o fim do processo.
Na prática, o trabalho costuma envolver:
- Psicoeducação: entender o que é ansiedade e como ela funciona;
- Reestruturação cognitiva: aprender a identificar e examinar pensamentos automáticos;
- Exposição gradual: retomar, passo a passo, situações que a ansiedade fez você evitar;
- Prevenção de recaída: construir um repertório para os momentos difíceis futuros.
O que esperar do processo
Cada pessoa tem uma história, e cada tratamento é construído de forma individual, não existe número “certo” de sessões nem fórmula pronta. O que a TCC oferece é um caminho estruturado, com objetivos definidos em conjunto e ferramentas que você leva para a vida.
Quando buscar ajuda
Se os sintomas descritos acima estão presentes na maior parte dos dias há semanas, ou se a ansiedade está limitando decisões, trabalho, sono ou relacionamentos, uma avaliação com psicóloga(o) (e, quando necessário, com psiquiatra) é o próximo passo razoável.
Se você quiser conversar sobre o que está sentindo, entre em contato: atendo presencialmente no Rio de Janeiro (Freguesia/Jacarepaguá) e online.
Evelyn Ferreira da Silva, Psicóloga (CRP 05/49603) · evelynferreira.com.br
Referências
- Organização Mundial da Saúde, dados de prevalência de transtornos de ansiedade no Brasil (cerca de 9,3% da população), amplamente citados na imprensa (BBC Brasil/G1, 2023).
- Covitel 2023. Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis em Tempos de Pandemia.
- NICE (Reino Unido), Clinical guideline CG113: Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management.
- JAMA Psychiatry (2023), Psychotherapies for Generalized Anxiety Disorder in Adults: A Systematic Review and Network Meta-Analysis of Randomized Clinical Trials.

